Se tem um sonho que eu sempre alimentei quando eu era mais novo era o de ser um grande escritor e emocionar as pessoas com as histórias, dramas e vilões que eu era capaz de criar na minha cabeça e transcrever para o papel. Papel mesmo, meus primeiros livros eram escritos a mão em agendas velhas porque eu era uma criança autista solitária e pobre, ou seja, sem muitos brinquedos mas com muito tempo livre.
Até que um dia, perto de virar adulto, eu conheci a magia ingrata de sites como Spirit Fanfics, Fanfiction, e famoso, garboso, gostoso e aclamado Wattpad, onde as pessoas compartilhavam suas histórias e curtiam e comentavam as histórias umas das outras. Aí pensei que estava finalmente no meu lugar e que finalmente meu suposto talento seria finalmente valorizado. Mas a vida, a vida é realmente uma caixinha de surpresas, e numa bela manhã de sol, eu descobri a coisa mais basica que todo usuário desse buraco negro de expectativas frustradas chamado Wattpad já sabe: Só tem uma coisa que de fato as pessoas lêem ali: Pessoas fazendo saliências! Sim, pornô em letras! O Wattpad virou literalmente uma espécie de X-Videos literário, e o que é pior quase todo personagem homem desse tipo de história só tem duas opções de carreira: Ou ele é CEO de uma grande empresa, bem sucedido tipo um Christian Gray da vida (livro esse que começou justamente como uma história dessas na internet, e o que é pior: Fanfic de Crepúsculo!) ou então um traficante (tipo um "Cinquenta Tons de Pó").
Se eu fosse me render, naquela época, a esse status quo, essa certamemte seria a primeira coisa que eu ia mudar. Porque ninguém acha sexy quando é um trabalhador braçal pobre que precisa todo dia se matar pelo seu sustento? Alguma coisa tipo um pedreiro, quem sabe? Conseguem pensar numa história mais suburbana e brasileira que todo mundo ia se identificar do que "O Servente de Pedreiro e a Obra do Amor"?
Desde que começou aquela obra ao lado da minha casa, alguma coisa tinha começado a brilhar em seu coração, tal qual aquela obra fosse para construir nele os alicerces da sua felicidade. E nos momentos tão loucos de sonhar acordada se encontrava na janela apenas observando e suspirando acordava pelos braços fortes e suados queimando no sol daquele servente de pedreiro..
Ah, quem lhe dera, quem lhe dera só por um momento pudesse ser aquele tijolo de barro em suas mãos fortes sendo tocado com força e chegando tão perto de seu rosto, sentindo o suor que pinga de seu rosto em cima dela e depois, do jeito mais sensual, lhe jogasse aquele cimento úmido e quente do sol na cara e depois a colocasse na parede e a pressionasse gostosamente contra ela, apenas para depois olhar para outro tijolo e esquecê-la como se nada nunca tivesse acontecido entre os dois e tudo fosse nada mais que trabalho. Um delicioso trabalho que assistia de sua janela.
Mas então resolve fazer algo a respeito, desce as escadas de sua casa e chega até a obra com uma garrafa de água gelada em suas mãos apenas para o pretexto de conversar, afinal, quantos podem dizer que sua história começou na obra e terminou no acabamento? Assim, se aproxima dele. Mais de perto chega a ser nauseante, de um jeito bom, ver aquela musculatura queimada de sul úmida de suor com pequenas manchas aqui e ali do claro cimento.
-O-o senhor quer água?
-Ah, sim, obrigado! - Ele pega a caneca e toma a água com vontade, a mesma vontade com que ela ansiava em seus sonhos mais profundos e molhados que ele a tomasse.
E então, ele devolve a caneca. E ela não resiste, na fantasia do momento, e começa a chupar a caneca para sentir o seu gosto tal qual alucinação do desejo.
-Ok, eu preciso trabalhar! A gente pode se falar depois! - Ele diz.
Seus olhos brilham ao ouvir aquela palavra. A emoção lhe toma. Então ele realmente queria, assim que terminasse a obra do vizinho, construir uma vida de uma paixão avassaladora com ela, logo depois. Mal consegue responder e apenas o observa, deixando-se tomar pelo desejo.
-Moça, por favor, para de me olhar assim!
Ela pode sentir o que está havendo, ele mal consegue olhar em seus olhos sem compartilhar do mesmo sentimento que a queimava por dentro de amor e ansiedade por se satisfazer. Ela então toca seu braço na esperança de que entenda que entenda a recíproca de seus sentimentos.
-Moça, por favor, é sério, eu vou chamar a polícia!
Mas é claro, como não pensou nisso antes? A fantasia de policial seria tão perfeita para apimentar aquela noite maravilhosa para a qual ele a convidava com aquele olhar quase úmido e sedutor com as sombrancelhas levantadas, sinalizando que algo mais pretendia se levantar. E assim, ela o abraça, e na emoção do momento, mal nota quando de repente todas as paredes a sua volta ficam acolchoadas. E o colchão é certamente o sinal mais claro e poderoso, de que ele virá vê-la novamente para acontecer de novo o amor!